
De fora apenas se via a janela, no primeiro piso, é capaz, dourada, tépidamente iluminada, recheada de mesas simples e de bom gosto, luxuosamente reuqintada de pessoas, altas pessoas desse alto primeiro andar, que disfrutavam de uma qualquer refeição, jantar, sim era jantar. Uou! Excalmei eu. Quatro estrelas! Que máximo! Observei por momentos a porta, a transparente porta que comunicava com a recepção, confortável, igualmente bonita, moderna, quente. Simpática, parecia simpática e era convidativa. Almejei um dia lá ficar, quiçá numa loucura aventureira? Depois de ter descido o Parque, e atravessado acho que já mais de metade da Avenida, de noite, claro, já quase nada mais poderia juntar magia ao passeio ao qual o tempo deu tréguas. Mas dois passos à frente, lá estava ele. Comodamente imóvel, apreciando também ele a agradável noite e muitíssimo bem vestido de cartões, sob os quais dormitava deitado no chão. Muito bem acompanhado da a sua garrafa de vinho, companheira de longa data, atrevo-me a dizer. Mas que é a única capaz de olhar por ele na solidão. Se teria fome? Provavelmente. Mas as altas pessoas do primeiro andar não. Mergulhado numa imensa núvem cinzenta, não me foi possível ver-lhe a cara. Se calhar também não quis, envergonho-me muito por isso, por não ser quem desejaria ser. E discretamente lá estava ele escondido. O sem-abrigo, o vagabundo, o marginal, aquele que não vive porque não pode, ou porque não quer na minha sociedade. Não, não estava escondido, estava lá para quem visse. E vive, vive na minha sociedade se não eu não o via, se não não me indignava este contraste de dois passos, se não não haveria a luxuosa refeição iluminada, a que o escuro e magro e solitário homem sem casa não pode aceder, porque à minha sociedade nem eu sei se pertenço.